"Vai lá brincar!"

 

 

   A frase em si já me surpreendeu. "Vai lá brincar!". Repetiu o pai. Era pouco antes do almoço. O calor no Rio fazia a sombra ficar meio sem sentido. Eu me encontrava em frente a um mini parque de diversões. A criança, dentro de uma piscina de bolinhas, ao contrário do que as outras crianças faziam, ficava se espremendo na tela de proteção, tentando esticar o bracinho para alcançar o pai - aquele, do "vai lá brincar!" - que filmava tudo com sua câmera. Melhor. Que olhava seu próprio filho através da tela de seu celular e gritava com ele para brincar. Seu próprio filho, que estava a um brancinho de distância dele, e que nunca mais vai ter aquele momento com o pai.

   Os perseguidores do copo "meio cheio" irão teimar que o pai queria era gravar

tudo para a posteridade, para um dia mostrar para a família, os pseudo-amigos

do facebook, quiçá o próprio filho, quando o mesmo tiver 18 anos e não entender

como utilizavam aquela tecnologia antiga. Mas teimo em ser crítico nesse ponto.

Nada seria mais importante do que estar com o próprio filho naquele momento.

Não apenas fisicamente, ao alcance dos olhinhos dele, mas no caso também ao

alcance do bracinho dele.

 

   O tom da narrativa que apresento é o tom de quem vê as relações entre as pessoas cada vez mais e mais despedaçadas. Amores são resultado de deslizar a tela do celular para a direita. E um novo romance é a esperança de preencher o vazio de uma vida que se complementa com "curtidas". Não há um sorriso que não seja para selfie. Se alguém tivesse tido o trabalho de anotar para onde as pessoas pousam seu olhar, garanto que seria óbvio perceber que a postura geral das pessoas mudou. Anote aí, a altura dos olhos das pessoas deve estar um cinco centímetros mais baixo que antes do celular. Uns cinco míseros centímetros. Mas que fazem toda a diferença. É a diferença entre olhar os olhos e olhar a boca.

 

   Por favor, não ache que para mim o celular é um retângulo destruidor de vidas. Este texto, por exemplo, está se utilizando de um. Máquinas são ferramentas. Desde o plano inclinado até a energia nuclear. Nós é que decidimos como vamos usar uma faca. A faca é a faca. Se ela vai servir para nos alimentar - passando aquela manteiguinha no pão quente - ou não, é conosco. Temos uma grande ferramenta, chamada vontade. Resta-nos escolher como dirigi-la.

                                                                        Proponho um exercício de pensamento - ou, como chamava o Albert (também conhecido como Einstein),

                                                                     Gedankenexperiment -, um exercício bem simples: lista pra mim rapidinho cinco métodos para saber onde

                                                                     é o parque mais perto. Se você não falou o "aplicativo" perguntar-para-a-pessoa-do-lado, então acho que

                                                                     deveria levantar seus olhos uns cinco centímetros.

                                                                        Felizmente não falo do todo, como um todo. Sei que existem pessoas maravilhosas, e continuarei com a

                                                                     esperança que um mundo melhor é sempre possível. Um mundo onde um pai não precise de uma câmera,

                                                                     para olhar seu filho. Mas que seu coração seja a melhor memória. Que um pai queira é estar DENTRO da

                                                                     piscina de bolas. Pulando com a criança. Que ele não precise dizer para a criança ir brincar. Porque ela

                                                                    estará brincando também. Que o seu sorriso seja o suficiente. Um mundo onde um pai está a menos de um

                                                                    bracinho de distância. Eu acredito nesse mundo e espero que você também.

 

RS