O mesmo, diferente

"Zaoshang hao..."
"Oi?"
"English?"
"Yes..."

 

A conversa começou assim. Um chinês queria saber como chegar no aeroporto.

Achei curiosa a situação. Eu poderia ter a melhor intenção do mundo. Mas se eu

não soubesse falar uma língua em comum com aquele senhor não conseguiria

ajudá-lo. Felizmente achamos o inglês como linguagem comum. Mais tarde,

sentado em uma lanchonete, entre uma pizza e um refri comecei a pensar

nessa coisa toda de linguagem. E como a palavra é importante para

transmitir seus pensamentos. Você pode ter a melhor intenção do

mundo, mas se não souber a linguagem do outro, de nada adianta.

Para o meu mundo acadêmico - eu tenho uns quadradinhos de papel que me permitem dizer que sou cosmólogo - algumas palavras tem uma conceituação específica, um tanto diferente das usuais. A brincadeira aqui é muito simples, (re)definir algumas palavras que, em geral, tem diferentes significados, dos usuais. Vamos nos restringir a duas. Só por curiosidade.

Inflação:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não... você não vai ler nada de algum consultor econômico das grandes mídias, ou crescimento do desemprego. Tem relação com crescimento, mas de outro tipo...

 

Vamos começar esse tour bem rápido, apenas para entendermos sobre o que estamos discutindo. Vamos começar assim: Você está lendo isso aqui (obviamente). Aí tem a sala, quarto, ônibus, trabalho, enfim... tem um lugar em torno de você. Esse lugar está dentro de um lugar maior. Uma cidade. Que está dentro de um estado... país... continente... planeta... sistema de planetas, galáxias, aglomerados de galáxias... mais e mais... pronto. Agora estamos falando do Universo todo.

 

Ok, então agora já sabemos o que é o Universo todo. E daí? Daí que desde o começo do século passado... junto com o crack da bolsa de 29, da iminente guerra e do lançamento de branca de neve e os sete anões, também descobrimos (enquanto humanidade), que o universo está expandindo. Legal! Mas peraí... se ele está expandindo, significa que no passado ele era cada vez menor. Opa. Se ele era cada vez menor, então tem um momento que ele é bem pequeno certo? Mas bem pequeno mesmo! E aí que entra a INFLAÇÃO. Para explicar o Universo que temos e algumas de suas características, precisamos que, em algum momento nesse começo de Universo, o mesmo tenha se expandido de modo muito, mas muito rápido mesmo, em um intervalo de tempo muito, mas muito pequeno mesmo. Que ele tenha, literalmente, inflado. Como aquela assoprada boa que você dá na bexiga de festa, pra começar. Vup! E depois começa a assoprar de modo mais lento. É exatamente assim a evolução do Universo. Tem uma “assoprada” inicial, que chamamos de inflação, e depois uma assoprada mais lenta, que é a expansão usual (ok, ok... atualmente parece que estamos de novo com uma assoprada forte... causando uma aceleração no universo... mas isso não vem ao caso agora). A inflação então, para cosmologia, é essa expansão gigantesca do Universo, em sua fase inicial. Só para ter uma idéia. A inflação durou apenas 0,000000000000000000000000000000001 segundos. E nesse mísero tempo, ele cresceu 10000000000000000000000000000000000000000000000000 vezes. É, rápido assim.

 

Massa:

 

Esqueça a massa de pizza que você está vendo na imagem. Ok, ok. Falar para esquecer é a pior maneira de fazer alguém esquecer algo. Certo, pense então na clássica história da maçã do Isaac (também conhecido como Newton). Reza a lenda que ele estava sentado embaixo de uma macieira, até que: puff! Caiu uma maçã na cabeça dele. Hoje em dia, pelo que os pesquisadores andaram fuçando das histórias, se acredita na verdade que o Isaac viu uma maçã cair e começou a pensar sobre o porquê das coisas caírem. Tempos depois ele desenvolveu o que recebe o nome bonitinho de Teoria da Gravitação Universal.

 

Noves fora sobre como foi a história, fato é que ele desenvolveu a relação entre quanto tem de matéria em cada corpo – definição de MASSA - e quão forte ele é puxado pelo planeta – definição de peso. E é justamente a diferença entre essas duas coisas o ponto principal aqui. Por exemplo, imagine um astronauta que vai pra Lua. Aí o carainha põe lá o capacete, se despede da esposa, fala pra filha que vai fazer uma viagem e que trás uma rocha pro filho. Fora o suor que ele perde na subida, este astronauta tem a mesma massa na Terra e na Lua. Ou seja, a mesma quantidade de matéria. Porém, lá na Lua ele é puxado por uma força muito menos intensa. Isso ocorre porque a intensidade do “puxão” depende não só da massa dele, mas também da massa do lugar que ele está. Ou seja, ele pesa menos na Lua do que na Terra, mas tem a mesma massa em ambos os lugares. Resumo da ópera. Para quem não está satisfeito com a balança, vale pôr o capacete e trazer uma rocha para o filho. A notícia ruim é que a sua massa vai continuar a mesma...

 

Uma brincadeira final... Este texto foi sobre encarar as palavras - e portanto conceitos - antigos, com olhos novos. Mas nota que isso pode ser estendido para outras áreas da vida. Como, por exemplo, ver as mesmas pessoas que você viu a vida inteira, mas com outro olhar... Mas isso fica pra outro artigo.

 

RS