Rio Pós-Apoc

Este conto surgiu de um projeto em composição com João Carlos Gonçalves e Pedro Novaes. A ideia era criar um mundo onde um cataclismo nuclear devastou todo o mundo conhecido, tornando o que era trivial em algo complexo, e fazendo da tecnologia uma fonte de guerra. Este conto descreve uma jornada de membros de uma "família" através do que foi conhecido como "A cidade maravilhosa", mas que agora é apenas uma selva de vidros quebrados, dividida entre as famílias, os crentes, os comunas, os militeres e os errantes. Uma drama de conflitos com o  mundo e consigo mesmo.

 

RS.

Parte 6/8:

 

- Que merda! - exclamou André, enquanto dirigia o carro preto blindado.

- Isso é o máximo que esse bosta corre? - perguntava Rafaela, enquanto apertava as faixas para tentar estancar o sangramento de seu colega deitado no seu colo.

Carlos completava o grupo e tentava não morrer, como se fosse dele a escolha. Seus ferimentos, nos braços, pernas e no abdômen, o maior, o deixavam mudo.

- Agüenta aí cara! A gente vai chegar lá! - Dizia André, olhando pelo retrovisor. Sabia que se não fosse por ele os outros membros não estariam tão mal. Mas como ele poderia saber que haveriam explosivos naquele Templo?! Tentava prestar atenção nos destroços e entulhos nas ruas, mas era difícil com aquele vidro pequeno. Aquele carro blindado, que estampava um símbolo de uma caveira com uma faca atravessada, era resquício de uma época que haviam homens com armas que lutavam pela paz e homens com armas que tentavam burlar as leis. Mas isso foi antes da Grande Explosão. Antes das pessoas procurarem abrigos e se juntarem a seus semelhantes. Antes da Cidade se dividir entre as Famílias, as Gangues, os Crentes, os Comunas, os Militares e os Errantes. Hoje não há bons, maus, lei ou governo. Hoje todos tentam sobreviver.

 

 

Parte 4/8:

 

André olhava calado, sabia que os outros dois estavam esperando seu veredicto, mas ele mesmo não sabia qual era a melhor opção.

- Vamos entrar e pronto. - Disse Rafaela, uma mulher de 24 anos, cabelo liso castanho, cortado na altura das orelhas, lábios e nariz finos, um rosto delicado e corpo esbelto, seria muito bonita caso não tivesse uma vida de tiros e mortes nas lembranças. Sua história era carregada em sua própria face, sua expressão sempre fechada e temperamento explosivo mostravam porque era a mulher mais bem treinada em combate da Família a qual todos ali pertenciam, os Mônaco. Amarrara mais firme seu inseparável óculos sem grau, presos com um elástico na parte de trás da cabeça e repetira, como fosse dar mais crédito ao que tinha dito. - Vamos André! Não podemos pensar muito! Temos que agir enquanto o sangue tá fervendo!

- Calma Rafaela. - Disse, rispidamente, André. E, enquanto entregava o binóculo à Carlos continuou: - Não podemos achar normal ter um blindado militar na porta de um Templo. - E se sentou atrás do parapeito, no prédio em frente ao templo, do outro lado da rua, onde os três se encontravam. Apoiara as mãos na cabeça e passara os dedos por entre os cabelos lisos e compridos. De altura mediana, chegara aos 27 anos sem nenhuma cicatriz das ruas, quer no corpo, quer no espírito, o que era incomum.

- Na verdade temos uma chance. - Disse Carlos. Um homem que beirava os 35 anos, baixo, forte, com uma barba cerrada ruiva, como seus cabelos curtos e encaracolados. E, dito isso, os outros dois o olharam com expressões de dúvidas. Ele continuou: - Esse carro, apesar de ser um carro blindado, do modo como está posicionado parece que não estão engajados para combate, então, eu acho que estão utilizando ele pra transporte de alguém importante.

Rafaela não entendeu muito bem o que Carlos falara. Segurou novamente suas pistolas e falou para André: - Não importa o que essa lata velha tá fazendo aí. Viemos aqui porque tínhamos uma informação certa, então vamos nessa. Viemos aqui pra que? Entrar, tirar quem tivesse no caminho e levar a carga não é? É. A gente sabe que vai ter um carro dos crentes lá do outro lado não é? É. Então, que diferença que faz se tem outro carro aqui ou não? Nenhuma.– E ao fazer as perguntas as quais ela mesmo respondia, e com a rapidez que falava, frisava ainda mais sua personalidade agitada.

André se mantinha pensativo. O plano inicial era muito mais fácil. Todos sabem que o poder dos Crentes vem da massa e não das armas. Era pra ser um saque rápido, não esperava ninguém no Templo aquela hora, nenhum contratempo. Mas a presença dos militares era algo preocupante. Mas o mundo que se encontravam já era um mundo morto para muitos, os sacrifícios que outrora, por dependerem da vida de alguns, eram evitáveis, não são mais. O céu, os mares, até mesmo as pessoas estão poluídas, a perda de vidas humanas não tem mais tanto peso, talvez por não haver esperança do retorno de uma vida tranqüila para ninguém, talvez simplesmente pelo fato que todos estão interessados em sobreviver e o mundo, que antes era uma selva de concreto, agora é um deserto povoado por sobreviventes. Assim André não pensou no risco dele e de seus companheiros, olhou para as duas pessoas que estavam com ele e disse que era a hora. Pensava unicamente no que seu pai, e líder dos Mônaco, pediu que fizesse.

 

Parte 1/8:

 

A “Maravilha” que apelidou a Cidade foi perdida nos tempos pós-Explosão, junto com a alegria de sua população. No entanto alguns pontos ainda continuavam bonitos, como por exemplo o residencial Mônaco das Américas. Com a Grande Explosão, algumas pessoas preferiram lutar com outros buscando novos espaços, enquanto outros, como a Família de André, se uniu a outras poucas famílias e se resguardou do mundo exterior nos primeiros anos. Utilizando toda a estrutura fechada do condomínio o Pai de André, o engenheiro-chefe de diversas empresas de construção, junto com o chefe de duas outras famílias, um militar aposentado e um médico, transformaram o condomínio em um lugar para suas famílias passarem os primeiros anos de necessidade após a Grande Explosão. Com o passar do tempo, com o ar e solo mostrando serem possíveis de serem utilizados, a Família do condomínio, que passou a se auto-denominar os Mônaco, foi aumentando sua área de atuação e defesa aos poucos. Foi nesse contexto que André nasceu e cresceu. Destinado a seguir os passos do pai, ele aprendeu o máximo que pode sobre a Cidade e suas divisões, escutando histórias do seu pai de antes da realidade que consumia a Cidade. Além disso aprendeu também certos ofícios incomuns a outras pessoas comuns, como dirigir, ler e fazer contas.

Sabendo que um dia o posto de líder da comunidade seria dado a André, seu pai o chamou certo dia na sala de reuniões, localizada no parque do condomínio.

- André, tenho uma missão que deve ser feita. - Disse seu pai. - E acho que já tem idade de liderar um grupo de homens para isso.

André se surpreendeu, já estivera fora do condomínio, mas nunca liderara ninguém. Escutava seu pai atentamente.

- Será uma missão simples. - Disse ele, sorrindo, e ao sorrir suas rugas se acentuavam ainda mais. - Ao norte da cidade há um Templo reconstruído a pouco, muitos fiéis já estão o freqüentando, mas não há muito movimento fora do horário dos cultos. Estamos precisando de suprimentos e lá será um bom lugar para obter esses recursos.

André simplesmente assentia com a cabeça, como sempre. Seu pai continuava: - O templo possui um grande salão central, com dependências para os bispos nos fundos e um pátio onde guardam os suprimentos em caixas. Vocês devem chegar lá na hora que um bispo estiver, pois ele estará com algum veículo. A missão será simplesmente pegar as caixas, encher o carro e vir para cá de volta. Sei que será bem sucedido meu filho, assim como eu fui. Portanto escolha 2 pessoas para irem com você para partir amanhã de manhã. Aqui está o mapa com a localização do templo. Fique tranqüilo que ninguém vai se recusar a ajudá-lo. - Terminou, dizendo o pai, e o deixando no parque.

E isso era verdade, desde muito cedo esteve no centro das decisões do condomínio e freqüentava as reuniões que os líderes faziam. Isso o fez estar mais próximos das decisões do grupo, o que, por um lado o fez estar mais perto das grandes tomadas de decisão, mas por outro o fez estranho aos olhos dos outros de sua idade, marcando-o para sempre como um desajustado social. Por exemplo, estava presente na sala de reuniões quando Rafaela chegou no condomínio da maneira que chegou e foi aceita entre os Mônaco. Também estava quando Carlos foi admitido como um de seus pares, de fato o integrante mais recente do condomínio. E eles foram os escolhidos por André para a missão designada por seu pai. Talvez os tenha escolhido por terem vindo de fora e isso acarretar numa possível perda menos dolorosa, ou então os tenha escolhido justamente porque vinham de fora, e isso os fazia mais familiares para André que os outros residentes do condomínio. Fato é que tomou essa decisão de maneira impensada, como tantas outras, resultado de uma liderança imposta cedo demais, tornando-o um líder com resquícios de juventude. Capaz de ter decisões acatadas, mas mantendo uma culpa por não ter confiança nas suas próprias escolhas. Essas mesmas escolhas que o fizeram se culpar durante a fuga, a partir do momento que escolheu descer e avançar ao Templo com Carlos e Rafaela. após a intensa troca de tiros, de terem roubado um carro militar, de estarem agora fugindo o mais rápido possível, indo para casa.

 

 

Parte 5/8:

 

Enquanto os três desciam as escadas quebradas do prédio do outro lado do Templo puderam ver outros apartamentos pelos buracos nas paredes. Os apetrechos das cozinhas e os objetos pessoais jaziam mortos ao chão, demonstrando a inutilidade de tais objetos. Ao chegarem no saguão principal puderam ter uma visão melhor do Templo do outro lado da rua: Era um amplo salão central com capacidade para cultos com centenas de pessoas, que se mantinha com estruturas firmes e renovadas, provavelmente pelo trabalho árduo dos fiéis que calejavam as mãos enquanto seus Bispos mantinham relações com suas esposas. A imensa cruz em metal que fulgurava na entrada, era uma vergonha com relação ao que ela já representou para diversas religiões em todo o mundo, antes da Grande Explosão. Mas o silêncio da tarde e o veículo de metal que se postava em frente a porta dupla da entrada do Templo fez Carlos parar o grupo dentro do salão principal do prédio em que se encontravam e dizer: - Bem, sendo uma operação de transporte dos militares, então deverá haver um motorista constante no carro e outros 6 homens estão trazendo o “viajante”.

- Certo. - Disse André e pensou por um instante. Poderiam esperar os militares saírem, não teria problema e depois entrariam e roubariam a carga que eles vieram pegar inicialmente. Mas, André decidiu tomar uma ação impulsiva. Decidiu que entrariam e manteriam seu plano. Decisão que o fez sentir remorso daí em diante. - E como faremos então para entrar?

Rafaela sorriu, apertou ainda mais suas armas. Era uma mulher moldada em impulsividade.

- Bem, - continuou Carlos – há um ponto cego nesses carros. Se formos pela lateral oposta a do motorista é possível chegar até a passagem externa lateral do Templo, sem sermos vistos. E, como os militares utilizarão a cobertura interna do Templo para conduzir o “viajante”, enquanto nós estivermos na lateral do lado de fora do prédio não teremos problemas, já que vamos direto para os fundos.

Observando os escombros pela rua, comuns por toda a Cidade, André viu que seria possível atravessarem a rua por trás do carro e seguir para a lateral do prédio pelo lado oposto ao do motorista, como sugeriu Carlos. Então disse: - Ok, faremos o seguinte. Atravessaremos a rua por trás dos containers e do lixo na rua. Carlos vai na frente para mostrar o caminho através do ponto cego, eu vou atrás e Rafaela vem por último. - E, interrompendo a moça que ia falar sua recusa, continuou. - E assim será.

Os três respiraram fundo e começaram a atravessar a rua, devagar. Seguindo os passos cuidadosos de Carlos, os três seguiram para o outro lado alcançando a lateral externa do Templo e começaram a seguir para os fundos através do corredor formado entre o Templo e o prédio que tinha ao lado. Seguiram por toda a extensão da lateral do Templo, em certo ponto, olhando por uma janela que tinha uma pequena abertura Rafaela chamou os outros.

- O que foi? - Disse André. - Temos que continuar. - Mas, ao olhar para o interior do Templo ele viu que tinha motivo para interromper a caminhada furtiva. Dentro da nave principal podia-se ver seis homens, armados com fuzis, vestindo pesados coletes à prova de balas e roupas de proteção pretas. No entanto, no momento os fuzis estavam guardados nas costas e eles estavam entretidos montando explosivos ao redor do salão principal e era possível ver o Bispo no altar, sentado em uma cadeira acolchoada e rindo. Essa podia ser uma cena impressionante para os que não conheciam as atrocidades da Igreja do Milagre Eterno. No entanto, para aqueles três ficou óbvio que o Bispo, por alguma razão, fizera um pacto com os militares para explodir o templo no momento do culto da noite, o motivo podia ser algo tão fútil, quanto a necessidade de mostrar aos fiéis que o mundo está contra eles, quanto vil, como a tentativa do Bispo de assassinar algum fiel rebelde. Haviam diversos motivos, mas nenhum justificável.

Os três se abaixaram, Rafaela e Carlos olharam para André.

- Eles são 6 homens. Armados até os dentes. Não temos chances com eles. Já estamos aqui, vamos tentar pegar as caixas e ir embora, como combinado, infelizmente não podemos fazer mais nada. - todos estavam chocados, mas o vento gelado soprava toda noite e, se fossem tentar salvar a Cidade de cada mal, não fariam mais nada do que podia ser chamado de vida.

Com isso os três continuaram a seguir a lateral do Templo até chegar ao pátio dos fundos. Lá, podia se ver o amplo pátio, cercado por grades de madeira quebradas e com uma caminhonete parada do outro lado. As caixas que eles levariam estavam empilhadas no chão, encostadas na parede dos fundos do Templo. O plano seguia conforme planejaram. No entanto, quando os três estavam carregando uma caixa, cada um, ouviram passos chegando de dentro do Templo. Os três correram novamente para a lateral, sem se desfazer das caixas e se encostaram para escutar quem estava chegando.

- Ninho. Aqui é águia 1. Na escuta? - Disse o militar que parara em frente a porta dos fundos. Algum ruído de resposta foi ouvida pelos três, seguido pela voz do homem que se encontrava a alguns metros deles. - Escutei alguma movimentação aqui fora, você viu alguma coisa? - Novamente um ruído de resposta foi ouvido e “águia 1” finalmente respondeu. - Está certo, pode ter sido impressão. Vou ficar aqui. Continue no ninho. - E mas nenhum barulho foi ouvido, nem de passos, nem da porta dos fundos se abrindo ou fechando. Aparentemente o militar se postara em guarda nos fundos.

Com isso André fez sinal para os outros seguirem no caminho de volta. A fuga não iria ocorrer como planejaram. Não havia a possibilidade de escaparem pelos fundos, a única alternativa era seguirem pelo caminho que vieram. Os três voltavam a passos lentos.

Ao alcançar o começo do beco lateral todos pensavam que o caminho de volta seria igual ao do começo, a tomada do ponto cego, a travessia pelo lixo na rua e a chegada no prédio em frente, tudo isso aconteceria, caso as pessoas não fossem imprevisíveis. Ao contrário do que manda todo o manual militar o motorista do carro blindado se postara do lado de fora do carro e, quando os três chegaram ao começo do beco e se depararam com o militar do lado de fora todos ficaram surpresos. Exceto Rafaela que largou sua caixa, sacando e disparando em um só movimento, acertou 3 tiros na face do militar.

Sem pensar todos sabiam que tinham que fugir, e aquele carro blindado era a única opção. Carlos entrou rapidamente na parte da frente e se jogou pra trás despejando sua caixa e abrindo a porta traseira, enquanto isso André sentou na parte do motorista e tentava achar como ligava o carro. Rafaela pagou sua caixa do chão, ainda com a pistola em punho e subiu pela parte traseira. No entanto, enquanto os três subiam no carro, os militares dentro do Templo foram alertados pelos tiros e corriam para fora. Atentos à porta principal nenhum dos três fugitivos se atentou para o beco de onde vieram, bem como de onde o militar, que se postava na porta dos fundos, correu e jogou uma granada na direção do carro. Carlos tentou fechar a porta a tempo mas não foi rápido o suficiente para evitar que a granada explodisse perto dele, projetando ele carro a dentro muito ferido. André então trancou as portas o que foi uma decisão salvadora, já que o carro não tinha como ser aberto pelo lado de fora se trancado.

- Liga logo isso! - Gritava Rafaela.

- Não sei como! - Respondia André, olhando cada botão do painel.

Foi quando Carlos, com adrenalina suficiente em seu corpo para o fazer se debruçar sobre o painel da frente colocou a mão por debaixo do volante e rompeu e religou certos fios que fizeram o carro ligar. Os diversos tiros, dos mais variados calibres, feitos pelos militares que saíram do Templo fizeram André se preocupar simplesmente em sair rápido dali, o que foi feito com certa habilidade.

Avançando para longe os três se sentiam mais seguros e analisaram a situação que se encontravam. As ruas, cobertas de escombros, remanescentes das guerras civis, nos tempos que as pessoas ainda tinham forças para combater uma guerra contra um inimigo qualquer faziam da Cidade um lugar com diversos obstáculos. Por vezes dois ou três homens e mulheres maltrapilhos eram vistos nas ruas, tentando rapidamente se esconder ao observar se aproximar o carro blindado preto que se encontravam. O medo era a maior arma dos militares.As ruas eram galgadas com velocidade.

Carlos jazia enfaixado pelos suprimentos médicos encontrados por Rafaela no carro e sentindo dores, tentava não se mexer muito para não agravar sua própria situação. André voltou suas atenções para a estrada e para tentar guiar aquela máquina com a maior destreza possível, tinham que chegar logo na sua Família e ele começou a traçar a rota mentalmente. Na verdade não havia muito o que pensar, restavam duas alternativas para ir do Templo na parte Norte da cidade para o residencial Mônaco das Américas, ou atravessavam a Pequena Avenida, antes conhecida como Av. Carlos Lacerda (em contraste com a antiga Avenida Brasil, que agora era conhecida como Grande Avenida) ou seguiam pelo Túnel, outrora conhecido como túnel Rebouças. Seguir pela pequena avenida seria uma loucura completa, se ainda estivessem com a caminhonete do plano inicial ainda teriam chance, mesmo que tivessem que pagar alguma espécie de pedágio para as famílias que dominavam os morros do caminho. Restava então o Túnel, que, apesar de ser domínio dos comunas, era menor que toda a pequena Avenida e aquele carro, provavelmente, agüentaria algumas colisões com barricadas.

Durante o tempo todo que estava pensando ficara quieto e não percebera que Rafaela, estranhamente, também não falava nada. Tirou os olhos da estrada para fitar os olhos de Rafaela pelo retrovisor e se surpreendeu com o olhar aparentemente lunático da moça, e percebeu que ela coçava as próprias mãos. Se continuasse do jeito que estava ela poderia se ferir. Com a atenção entre a estrada e a saúde dela, André disse: - Olha, quando chegarmos no condomínio vamos falar com o Dr. Aluísio ok? Essas crises estão piorando... . - foi interrompido por ela no meio da frase. - Foda-se André! Foda-se o doutor roupinha branca! Eu tô bem tá! Não é nada de anormal, daqui a pouco passa, sempre passa, sempre passa. - e voltou a olhar para a estrada, lembrando da primeira vez que começou a sentir esses sintomas, e do barulho da água escorrendo pelas calhas do teto de zinco no dia que foi capturada, o som era tão nítido quanto se estivesse acontecendo naquele instante.

 

 

 

Parte 2/8:

 

Rafaela nasceu e passou a infância olhando A Lagoa. O cheiro, que lembrava esgoto a céu aberto, era horroroso para muitos, mas para ela é a lembrança dos dias de inocência, paradoxos da mente humana. Com o passar do tempo, mais e mais pessoas foram se agrupando nas dependências da construção que sua família, junto com outras duas, se instalou. Acostumada a correr na terra que cavalos correram nos tempos pré-Explosão, ganhou um corpo esbelto e atlético. Nos anos de adolescência aprendeu defesa pessoal com os 5 irmãos e a atirar com seu pai “É preciso saber se defender, não importa o que você tem entre as pernas” ele dizia. Nesse contexto de vida Rafaela moldou seu caráter como uma mulher que sempre buscou seu espaço, não importando o sacrifício a fazer. Em uma dessas tentativas de demonstrar seu valor Rafaela acompanhou um grupo para uma jornada que a fez perder sua família e amigos, aos 18 anos de idade partiu com 6 amigos para as dependências de uma família que morava em um morro, do outro lado da Lagoa. Partiu para nunca mais voltar ao seu lugar de origem.

O único rádio que tinha a Família Cavalariço, de onde veio Rafaela, além de estática, recepcionava algumas transmissões esporádicas amadoras e uma única transmissão regular, iniciada a poucos meses, que anunciava um “porto seguro para os civis de bem ao redor” provinda, provavelmente, do morro alto a leste da Famílias dela. Com a esperança de que iria fazer contato com outra família de bem, engajou-se na incursão a tal lugar. No entanto, a mensagem era apenas uma isca dos militares que tinham feito um acampamento avançado para aprisionar alguns comunas. Em certo dia chuvoso ela partiu com seus colegas para o local da transmissão. Chegando na construção no topo do morro, adentraram o pátio principal e então tudo aconteceu muito rápido. Tiros foram ouvidos, ela tentou se abrigar em algum dos escombros no pátio, a tempo de ver alguns colegas seus caírem, mas não a tempo de escapar de algumas descargas de tranquilizantes. Seu corpo caiu ao chão e sua visão se turvou, o telhado de zinco de uma partes do pátio se tornou um borrão e o som da chuva nas telhas ficou marcado em sua mente para sempre.

Do que restou em sua lembrança daquele dia, Rafaela lembra de uma viagem de helicóptero, alguns homens vestidos com roupas pretas reforçadas, alguma gritaria durante a própria viagem de helicóptero, gritos dos homens encapuzados perguntando quantos mais “vermelhos” haviam, sons de esganadura, barulhos incompreensíveis e luz ofuscante. Muito tempo depois Rafaela acordou em uma câmara isolada, de ferro, um quarto de prisão que poderia ser em qualquer lugar onde ela sabia que, se morresse, ninguém iria saber do que aconteceu a ela. Muito provavelmente essa prisão se encontrava na Ilha, o reduto principal dos militares, mesmo que eles se dispusessem de outros postos avançados.

Os dias seguintes foram tão dolorosos que até sua própria mente tenta esconder de si mesma. No entanto algumas coisas ficaram eternizadas. Como ficou sabendo, ao descobrirem que não eram comunas e que todo esquema e gasto no acampamento avançado foram inúteis, os militares resolveram utilizar Rafaela e seus colegas em um projeto militar de condicionamento e resistência mental para combatentes de campo. Por muitos meses ela ficou sob o efeito de drogas dos mais variados tipos e foi exposta às mais diversas condições extremas, como, por exemplo, passou muitos dias em frente a um duto de ar que emitia um forte vento em seu rosto, o que fez seus olhos ressecarem e a traumatizou a tal ponto que a fez sempre estar de óculos, para nunca mais sentir o vento em seus olhos. Muito tempo se passou e ela resistiu aos mais variados estímulos e situações. Em certo ponto foi decidido que ela deveria ser levada a outro laboratório, em outro ponto da cidade, foi então sedada e não lembra de nada da viagem.

Sabe-se apenas que o helicóptero caiu no condomínio que era conhecido como Mônaco das Américas, provavelmente por falha mecânica, e a única sobrevivente foi Rafaela. Nenhum de seus amigos foi encontrado. Com isso a família Mônaco a “adotou” e seu temperamento explosivo, bem como sua força de vontade, estão sendo utilizados para proveito de todos.

 

 

 

Parte 7/8:

 

Rafaela pulara para o banco da frente quando começaram a subir o elevado que os levaria ao Túnel, sua última possibilidade de caminho a seguir.

- Ué! - Exclamou André com a chegada da moça e olhou para o interior do carro, procurando Carlos e desviando sua atenção da estrada por um segundo. O viu, deitado, com suas tiras encharcadas de sangue. Voltou suas atenções para a estrada e perguntou para Rafaela - Você não ia ficar com ele?

Ela, que agora se encontrava sentada no banco do carona, com os pés em cima do vidro e olhar vago, respondeu sem parar de ajeitar seus óculos sem grau: - Tá tranqüilo, ele tá desmaiado agora. Daqui a pouco acorda.

- Já estamos chegando no Túnel. Em pouco tempo estaremos em casa... se tudo der certo. - E falou essa última parte em tom mais baixo.

Propositalmente ou não, Rafaela manteve o tom mais baixo e se virou para ele e perguntou: - Você não acha estranho não?

- O que é estranho menina? - Disse André sorrindo, tentando acalmar uma situação tensa.

- Não me chama de menina! - Disse ela.

- Calma, calma. - Disse André olhando para ela. Mas o segundo com o olho fora da estrada foi o suficiente para o carro passar por cima de uma motocicleta que se encontrava jogada no meio da estrada. O carro subira num solavanco, todos no seu interior sentiram o impacto, mas o peso do carro o fez voltar de maneira estável ao chão.

- Viu idiota. Dá pra prestar a atenção na estrada.

- Tá bom então. - Disse André em tom austero – o que é que você acha estranho?

- O Carlos.

André pensou em dizer “Mas você acha todas as outras pessoas no mundo estranhas.” mas preferiu não dizer, o clima não estava nada tranqüilo. Limitou-se apenas a dizer: - Porque acha ele estranho?

- Não sei. – Ela disse: - Acho que foi tudo o que ele falou hoje. O conhecimento sobre as estratégias dos militares. A idéia da quantidade de homens que estariam lá dentro. A rota de fuga. Porra André ele sabia como ligar esse carro! E eu não sei nem como dirigir um carro...

André sabia que ela tinha razão, saber dirigir um carro já era uma coisa incomum, mas saber como fazer uma ligação direta num carro militar era no mínimo estranho, ainda mais pelo fato de Carlos estar na Família a pouco tempo e ter entrado sob estranhas circunstâncias. Ficou quieto por um segundo. O Túnel se aproximava e eles teriam que atravessá-lo o mais rápido possível para evitar as barricadas construídas pelos comunas, que dominam o Túnel, e isso só seria possível devido a fortaleza ambulante que estavam.

Escutou Carlos gemer de dor e então pediu para Rafaela passar para a parte de trás do carro. Ela então pulou o banco e foi para a arte de trás para ver como Carlos estava. Quando André olhou para trás para conferir se estava tudo bem não viu as pedras que tentavam formar uma barricada, entre os escombros regulares e bateu nelas. O carro perdeu um pouco o controle devido a velocidade. André tentou retomar os controles mas nesse instante duas bombas de coquetel molotov foram arremessadas de encontro ao vidro, provenientes de lugar desconhecido. André perdeu completamente o controle. A mureta do elevado se aproximou perigosamente. O carro tombara e caminhava para a queda inevitável, no entanto seu peso o fez quebrar a mureta mas não despencar de uma altura mortal. No seu interior os três sobreviventes tentavam se recuperar do choque, do lado de fora foi ouvida uma voz proveniente de um megafone avariado: - Vocês tem 10 segundos para sair desse carro, seus malditos militares! Nós vamos tacar fogo em vocês todos se não saírem! 10...9...

André tentava retomar a consciência rapidamente, o barulho de fora era suficientemente alto para ele entender que se tratava de quem os atacou. Começara a ouvir uma contagem regressiva.

8...7...6...

Rafaela conseguiu resistir a queda e a toda a confusão, mas estava presa na torre, que agora se encontrava perto do chão devido ao quase capotamento. Tentava desesperadamente sair em meio a gritos de xingamentos, devidos, principalmente a raiva que estava sentindo por chamarem-na de militares, seus inimigos pessoais. A contagem prosseguia.

5...4...3

André sabia que era sua obrigação fazer algo. Era sua responsabilidade a presença deles ali. Gritou de dentro do carro, mas a estrutura metálica maciça provavelmente impedia os homens do lado de fora de o ouvirem. Foi quando viu uma mão ensangüentada sair da parte de trás do veículo e alcançar o que descobriu ser o alto-faltante do carro. Carlos estendera a mão com sacrifício e pronunciou palavras totalmente estranhas aos outros membros no interior do carro, porém amplamente conhecidas pelos comunistas. Apesar da desinformação do mundo exterior e do conhecimento geral perdido através das gerações, os comunistas guardavam uma relíquia do conhecimento humano, uma língua falada por seus predecessores, que se tornou sua linguagem secreta, impossível de quem fosse de fora saber. E Carlos a conhecia: - Раненый товарищ (Camarada ferido).- Disse ele, antes de desmaiar novamente. A contagem cessou. Nenhum tiro ou bomba foi disparado.

 

 

Parte 3/8:

 

- E, de agora em diante será Carlos. - E fora ovacionado com estalar de dedos, um dos muitos resquícios que os comunas guardavam dos tempos em que a luta armada era contra instituições muito maiores, muito mais do que uma luta por sobrevivência de um ideal em uma Cidade devastada e dividida.

Carlos, como passou a ser chamado a partir do momento em que ingressara na força armada dos comuna, aos 15 anos de idade, sempre foi calmo mas ativo, um guerrilheiro nato. Como todos os outros comunas que povoavam a Floresta (antes conhecida como Floresta da Tijuca), o último reduto dos comunas, ele nasceu e cresceu ouvindo diversas histórias de perseguição e sendo doutrinado no comunismo. Aprendeu a odiar os fanáticos religiosos, bem como os metódicos militares, de quem mais estudou as táticas e estratégias, a fim de conhecer bem o inimigo. Dos diversos acampamentos que eram espalhados pela Floresta Carlos foi criado em um dos mais afastados, na parte Oeste da Floresta. E talvez por isso seu sentimento de liberdade tenha se cultivado, pois olhava incessantemente para os diversos condomínios existentes na orla.

Apesar de compartilhar com o sentimento comunista de todos, Carlos não compartilhava das tendências agressivas de seus subordinados em seu acampamento. Chegara ao posto de capitão sem necessidade de ensinar por violência, mas sim pela bravura e honestidade demonstrada. Sabia usar, e bem, uma arma, mas só via como última opção, no fundo de seu coração desejava se afastar deles, poderia pedir para ser deslocado para outro acampamento mas isso ainda permitiria que as mulheres e crianças de lá sofressem nas mãos dos outros homens. Um dia, sabia ele, que não agüentaria mais continuar com aquilo e isso aconteceu de maneira violenta.

Certo dia sua célula foi ordenada descer da Floresta e avançar para uma família de traficantes que dominava morros ao norte da Floresta. O intuito da missão era muito mais obter informações do que enfrentá-los propriamente dito e assim ele esperava que fosse, por isso levou apenas seus dois tenentes e apenas dois soldados. Conduziu seus homens de maneira impecável até o sopé do morro a subida deu-se de maneira gradual e calma. Apesar de Carlos ver o medo na expressão de seus dois soldados, o que lhe assustou foram os olhares assassinos de seus tenentes, percebeu que em certo momento iria ter que decidir entre a vida de seus homens e a de inocentes, fato que ocorreu.

Ao chegar na metade do morro, enquanto caminhavam por uma mata fechada viram 3 garotos brincando. Um dos sargentos não perdeu tempo e se preparou para atirar, no entanto o outro abaixou sua arma. Acreditando que o segundo sargento apenas tinha evitado as mortes daqueles inocentes, desviou sua atenção para os soldados e quando ia emitir as ordens de posicionamento escutou dois tiro disparados pela pistola com silenciador do segundo sargento, a terceira criança saira em disparada.

Carlos ficara perplexo, não só pelas mortes inesperadas como pela reação de cumprimento entre os sargentos. Os soldados tremiam de medo, nunca haviam estado em combate fora da Floresta. De repente muitos tiros foram ouvidos, todos evacuaram rapidamente o sargento que teve sua arma abaixada foi alvejado por tiros de fuzil provenientes de algum lugar do meio da mata. Carlos e seus homens que restaram conseguiram escapar. Ao chegar no sopé do morro Carlos e os demais se recostaram em um carro destruído e tentavam se recompor. O sargento assassino ainda tinha a adrenalina correndo em suas veias, gritava coisas como: - Vamos voltar lá e acabar com cada um daqueles negrinhos! - entre outras coisas. Carlos olhava para ele com raiva fria. O mundo mudou muito, pensava ele. Os ideias que a maioria de nós tem não é compartilhado por todos. E, olhando para os soldados que se entreolhavam pensou, e esses jovens vão acabar tendo esses maníacos como exemplo. Sacou a sua pistola e deu dois tiros na testa do sargento, que caiu sem emitir outro som. Carlos percebeu que aquele segundo iria mudar sua vida pra sempre, avançou sobre os dois soldados, que tampavam o próprio rosto de medo, e lhe tirou as armas, sabia que no caminho de volta não seria necessário a eles. Se virou para os rapazes e disse: - Estou fora. - E correu na direção contrária da Floresta.

Passou os anos seguinte como um Errante, utilizando de suas táticas de combate para sobreviver na Cidade. Passou por momentos muito difíceis até decidir se estabelecer. Para isso foi até os condomínios que avistou a vida inteira e se apresentou como um renegado de um grupo de Errantes, algo que não estava tão aquém da verade e que queria se estabilizar e procurar abrigo tranqüilo e seguro. Talvez tenha sido sua expressão de solidão que tenha convencido os Mônaco de recebê-lo. Fato é que foi aceito e os ajudou até o dia da missão, convocado por André, em companhia de Rafaela e que o deixou ferido gravemente, quando foram interceptados pelos comunas, no Túnel.

 

Parte 8/8:

- Fica tranquila, ele vai ficar bem. - Disse André não acreditando em suas próprias palavras.

- André, porra, ele era um desertor! - Falou Rafaela, desabafando a tristeza dos dois.

Ela tinha razão, quando os comunas permitiram a passagem deles dois com a condição de ter que deixar Carlos lá foi uma decisão difícil.

- Escuta Rafaela, ele tava muito mal. Provável que morresse no caminho, não íamos ter tempo de ajudá-lo. Ali ele, pelo menos, vai ter provisões e medicamentos. Além disso eles não vão querer perder um cara forte e experiente como o Carlos, ele é um combatente excelente. Foi a melhor escolha pra ele, com certeza. - E, dito isso, ambos seguiram em silêncio pelo resto da viagem...

 

 

 

A chegada do carro blindado foi tomada com surpresa pelos moradores do prédio, enquanto André e Rafaela já estavam começando a se acostumar com o carro. Ao ver que luzes apontavam diretamente para eles e um megafone perguntou quem eram, eles se limitaram a parar e descer do carro. Foram então recebidos como heróis, não só pelo carregamento trazido, mas também pela máquina integrada aos outros veículos dos Mônaco. Alguns homens ajudavam a carregar as caixas, que foram abertas rapidamente para revelar seu conteúdo: Água mineral, soro, aspirinas e anti-térmicos, materiais baratos nos tempos idos, mas que agora quase custaram a vida de um homem, que aliás não sabem se voltarão a ver.